Mostre-me a tua lixeira que eu te direi quem tu és
- Rede + Comunicação
- Jul 21, 2022
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“Jogue o lixo no lixo, não jogue nada chão. Vamos deixar esta escola brilhando com esta canção”.
Se você leu a frase acima tentando orquestrá-la naquele ritmo animado de canção provavelmente já vivenciou alguma experiência de treinamentos, palestras, teatros, oficinas, aulas e outras inúmeras ferramentas que são utilizadas para a promoção da tão falada (e nem tão aplicada): EDUCAÇÃO AMBIENTAL.
A Lei Nº 9.795 de 27 de abril de 1999 que dispõe sobre a educação ambiental e institui a Política Nacional de Educação Ambiental, diz que, em seu Art 1º:
“Entendem-se por educação ambiental os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade (...)”
Mas não quero aqui, meu caro leitor, descarregar artigos, leis e incisos para discorrer sobre algo que, DEVERIA SER, uma temática fácil, leve e, principalmente, integrada aos nossos cotidianos de forma que, desnecessário seria a instituição de um instrumento legal para dizer como nós, SERES HUMANOS, devemos ajustar nossos valores sociais, hábitos e atitudes a fim de manter a nossa relação com o meio ambiente harmoniosa e sustentável.
E para falarmos de uma relação harmoniosa e sustentável com o meio ambiente, eis que surge uma problemática, encarada pela grande maioria como fedorenta e suja, que acompanha o ser humano desde os tempos mais remotos de sua existência: O LIXO.
Se você, (você mesmo), eis que ao chegar em casa hoje resolva brincar de mímica com a família e, coincidentemente (nada planejado), você tenha que representar através de expressão corporal, sem falar nada a seguinte palavra: LIXO.
Pensou? Eu chutaria que você levaria a mão no nariz tampando as narinas e simularia o ato de descarte de lixo afastando do seu corpo a mão que carrega o saco (provavelmente plástico) para a lixeira. Acertei?
Ou, ainda no ambiente dos jogos, eis que agora (agora mesmo) você resolva brincar de DICA. Aquele jogo que você tem que dar dicas para as pessoas adivinharem a sua palavra, sabe? E, supondo que a sua palavra seja LIXO, quais seriam as suas dicas? Eu ousaria chutar que seriam coisas do tipo: sujeira, descartar, rejeito, escória, jogar fora, detrito, resto, sobra entre outros...
Existe uma grande possibilidade de você ter se identificado com os meus ousados palpites anteriores. Isso porque, você não está só. Essa reflexão evidencia a nossa relação distante e superficial com o lixo que geramos diariamente.
E essa relação superficial e distante começa pela forma como nós, carinhosamente (ou nem tanto) o chamamos. A origem da palavra lixo deriva do termo em latim lix, que significa "cinzas". Curioso né?
Ainda, segundo o Dicionário Aurélio (1999), LIXO é “tudo o que não presta e se joga fora; coisa ou coisas inúteis, velhas, sem valor; resíduos que resultam de atividades domésticas, industriais, comerciais".
Resíduos que resultam de atividades domésticas, industriais, comerciais... Resíduos.
Complementarmente, falando sobre resíduos, e agora, especificamente, falando sobre resíduos sólidos, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) LEI Nº 12.305, DE 2 DE AGOSTO DE 2010 os define como:
“Todo material, substância, objeto ou bem descartado resultante de atividades humanas em sociedade”.
Ainda segundo a PNRS, os resíduos sólidos podem ser classificados em relação à sua origem (fonte geradora) e sua forma (perigosos ou não perigosos).
Porém, é importante ressaltar que o simples ato de “jogar fora” e descartar esse resíduo não significa que ele não tem mais valor.
Significa dizer apenas que ele não é mais necessário para quem o descartou. Acontece que existe uma grande (diria até imensa e real) possibilidade do resíduo que você descarta diariamente ainda ser útil para outras pessoas, em sua forma original ou transformado.
Mais ainda, existe chances reais desse resíduo gerar valor para você e sua família. E é aí que a verdadeira mágica acontece...
Segundo dados do Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2021, a geração de resíduos sólidos urbanos- RSU (resíduos domiciliares e de limpeza urbana) em 2020, foi de aproximadamente 82,5 milhões de toneladas geradas, ou 225.965 toneladas diárias. Isso significa dizer que, cada brasileiro gerou, em média, 1,07 kg de resíduo por dia.
Os dados apurados mostraram que a geração de RSU no país sofreu influência direta da pandemia da COVID-19 durante o ano de 2020 quando comparamos com os anos anteriores. E uma possível razão para esse aumento expressivo foram as novas dinâmicas sociais e até mesmo de trabalho (home office) que, em boa parte, foram quase que totalmente transferidas para as residências.
Com o aumento na geração dos resíduos domiciliares, a quantidade de materiais dispostos para coleta junto aos serviços de limpeza urbana também cresceu, levando a um total de 76,1 milhões de toneladas coletadas no ano de 2020, o que implica em uma cobertura de coleta de 92,2%.
Mas “perainda”: se eu estou dizendo que o Brasil gerou mais de 82,5 milhões de toneladas de RSU e coletou 76,1 milhões a conta não fecha. Onde estão os 6,4 milhões de toneladas de diferença? Não foram coletados? Para onde foram?
Antes de imergir no universo dos resíduos, eu, na minha limitada consciência ambiental, nunca me preocupei ou me questionei de forma mais profunda sobre a seguinte questão: O que acontece com o meu lixo depois que eu fecho a minha lixeira? Ou, considerando que eu faço parte dessa parcela privilegiada da população, depois que o caminhão de coleta passa na porta da minha casa?
Acho que no meu subconsciente algum tipo de duende do lixo resolvia o problema depois que ele saia da porta da minha casa. Acontece que, depois que você descarta o seu resíduo, muita coisa acontece. Ou não. E então chegamos em outra problemática: a disposição final ambientalmente dos resíduos sólidos urbanos.
Experimentalmente, a minha primeira lembrança afetiva com o lixo vem da infância, através de um programa de televisão de uma época não tão distante assim. No referido quadro o apresentador vivia uma experiência do tipo: “Sentindo na Pele” na qual ele passava um dia dentro de um lixão convivendo com as pessoas que ali viviam e faziam daquele meio a sua principal fonte de subsistência, fosse pela “triagem manual” de plásticos, papelão, papel, vidro para uma posterior revenda de recicláveis, fosse para alimentar a sua fome pelos restos e sobras de comidas que ali eram descartadas.
Me lembro nitidamente que aquela realidade me parecia muito distante. Aquela montanha de lixo misturado com pessoas perambulando, jovens, idosos e até mesmo crianças procurando cuidadosamente com olhares atentos qualquer oportunidade para valer o dia ou para saciar a fome. Cachorros, gatos, caminhões, urubus e equipamentos. Uma orquestra desafinada de uma realidade que, para muitos, era (e ainda é) o único meio de sobrevivência. Isso sem falar na sucessão de impactos negativos ao meio ambiente (solo, ar, água, fauna e flora) decorrentes dessa disposição final de resíduos totalmente inadequada e descontrolada.
Falar de lixões a céu aberto pode parecer uma realidade distante para você, mas deixa eu trazer uma outra informação. Lembra dos 76,1 milhões de toneladas de RSU coletos no Brasil em 2020? Pasmem: 40% desse total foi encaminhado para lixões e “aterros controlados”, soluções de disposição final de resíduos inadequadas e que ainda estão em operação em grande parte dos municípios do país e constituem um grave problema ambiental e de saúde pública.
Por outro lado, temos que considerar o avanço nos últimos anos (a passos curtos) da adoção de práticas ambientalmente corretas para a disposição final de RSU em aterros sanitários. Um equipamento de engenharia projetado para dispor os resíduos de forma responsável e controlada. Mais ainda, é importante considerar também que a busca por soluções tecnológicas cada vez mais inovadoras vem despontando no setor de gerenciamento de resíduos.
A adoção de práticas como: implementação de coleta seletiva, sistemas de coletas mecanizados e automatizados, investimentos em usinas de triagem, para separação manual/mecanizada de plásticos, papelões, vidros, borracha e outros tipos de materiais vem contribuindo para que possamos caminhar em direção a circularidade dos materiais na nossa cadeia produtiva reduzindo cada vez mais o envio para disposição final de resíduos e limitando essa disposição final apenas para os rejeitos. Ou seja, aquilo que realmente “sobra” dos resíduos, após esgotadas todas as alternativas tecnológicas de tratamento e valorização, e que não pode ser reaproveitado de nenhuma forma.
Quando falamos dos resíduos como recursos, e do valor agregado a sua matéria, é importante ressaltar também as tecnologias de valorização energética desses resíduos enviados para aterros sanitários por exemplo.
Atualmente, existem plantas em operação de usinas termoelétricas que realizam o aproveitamento energético do biogás, produto da decomposição de resíduos orgânicos em condições anaeróbias, ou seja, sem oxigênio. Este biogás possui um componente com alto potencial energético gerando energia sustentável e fortalecendo a matriz energética brasileira.
No que tange a indústria e a geração de resíduos e processos, existe uma demanda crescente para a introdução de resíduos e substâncias no processamento e fabricação de materiais. É um grande desafio que consiste em equilibrar as vantagens para manter eficiência da produção e qualidade do produto através da introdução de resíduos/substâncias no seu processo produtivo. O mercado de coprocessamento é um claro exemplo e que vem se consolidando tecnicamente nos últimos anos.
A inquietação e a busca por adoção de técnicas eficientes, inovadoras e disrruptivas está na essência do Grupo Solví. Afinal, é isso que buscamos: promover Soluções para a Vida, construindo diariamente, através dos nossos colaboradores, operações e tecnologias a ponte para um futuro mais sustentável.
Mas diante de todos os números apresentados anteriormente fica claro e evidente que há um longo caminho a percorrer. Muitos são os empecilhos sejam os dispositivos legais, políticos. A necessidade de implantação de programas eficientes que estimulem e promovam a coleta seletiva e coleta comum nos municípios garantindo a cobertura integral dos serviços para a população. As introduções de instrumentos econômicos que poderiam fomentar a criação de mercados para os resíduos e soluções mais circulares para os nossos processos. O encerramento dos lixões e adoção de soluções de disposição final ambientalmente adequadas para os resíduos.
Mas um existe um empecilho fundamental e básico para que possamos dar passos mais ousados na direção de um futuro mais sustentável. E agora eu volto para o trecho que iniciei esse texto:
“Jogue o lixo no lixo, não jogue nada chão. Vamos deixar esta escola brilhando com esta canção”.
Eu não tenho dúvidas que você já presenciou (ou até mesmo protagonizou) uma cena de descarte de resíduos nas ruas, nas praças, nos bueiros, nos parques, nas praias, pelo vidro do carro e tantos outros lugares que não fosse uma lixeira.
Vivemos em uma realidade em que 40% dos resíduos são dispostos de forma ambientalmente inadequada em lixões. Existe uma parcela, e digo significativa, da sociedade que não sabe diferenciar o que é um lixão e um aterro sanitário. Que possui uma relação distante e superficial com os resíduos que geram diariamente. Colocou na lixeira: “Não é problema meu”.
Agora um provérbio: “Mostre-me o teu lixo e eu te direi quem és”.
E de fato, uma verdade. Isso porque apenas tendo acesso a lixeira que você tem na sua casa eu saberia dizer qual a marca de cerveja que você gosta, e ainda, se prefere long-neck ou latão, ou se prefere um vinho seco, suave ou branco pela garrafa de vidro ou a marca de refrigerante pelas garrafas plásticas.
Se você tem gato, cachorro ou papagaio pelos sacos de ração (úmida ou seca). Se você é fumante ou não pelas butucas de cigarro. Eu descobriria até em qual rede de supermercado você faz as compras do mês pelos sacos plásticos personalizados. Se tem criança pequena pelas fraldas descartáveis...
Eu saberia dizer qual a sua pizzaria favorita pelas embalagens de papelão e até se você é da turma que gosta de azeitonas e cebola (pelos restos que ficam grudados na caixa da pizza, “tamo junto”). Descobriria se você é da turma fitness (ovo, batata doce e frango) ou se é da turma do Ifood (“tamo junto” mais uma vez).
Conheceria as suas frutas favoritas pelas cascas e sementes, sua marca de shampoo, sabonete, creme dental, sabão em pó ou líquido, e saberia dizer também, inclusive, se tem ido ao banheiro com frequência (informação desnecessária que eu dispensaria).
E o que nos mostra pequena reflexão: Diante de tudo o que eu te falei, se você chegar em casa hoje abrir a lixeira da sua casa poderia me dizer quanto daquele resíduo que você gerou poderia ser reaproveitado e valorizado?
É por isso que, precisamos, nos aproximar dos nossos resíduos de forma carinhosa, afinal, dá para se saber muito sobre uma pessoa olhando apenas a sua lixeira. Os seus resíduos falam muito sobre você, sobre sua rotina, sobre os seus hábitos de consumo e é por isso que, a educação ambiental tem que começar dentro da sua casa. A sua relação com o resíduo tem que começar desde cedo e à medida que vamos amadurecendo vamos ajustando os nossos valores sociais, hábitos e atitudes a fim de manter a nossa relação com o meio ambiente harmoniosa e sustentável.
Pare, pense e reflita. Discuta, internamente ou com a sua família, a sua relação com os resíduos que vocês geram, repense alguns hábitos de consumo. Se desafie. O caminho para a construção de um futuro mais sustentável depende de cada um de nós e são os passos que fazem o caminho.
Somos todos habitantes de uma casa, de um mesmo ambiente, de um mesmo planeta, e deixa eu te contar um segredo:
Do ponto de vista do planeta, não existe jogar lixo fora.
ABRELPE, 2021, PANORAMA DOS RESÍDUOS SÓLIDOS NO BRASIL, Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais.
BRASIL. Lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999. Dispõe sobre a educação ambiental, institui a Política Nacional de Educação Ambiental e dá outras providências. Presidência da República, Casa Civil, Brasília – DF, 2010. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9795.htm Acesso em: 18 jul. 2022.
BRASIL. Lei nº 12.305, de 02 de agosto de 2010. Institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos; altera a Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998; e dá outras providências. Presidência da República, Casa Civil, Brasília – DF, 2010. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12305.htm. Acesso em: 18 jul. 2022.


